Relatório macro – 1º semestre 2026

RELATÓRIO MACRO – AGOSTO 2026

Este relatório atualiza a leitura sobre os principais fatores que influenciaram os mercados ao longo de 2026 e seus efeitos sobre as carteiras dos Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS). Ao final, são apresentadas as perspectivas para o restante do ano e as principais implicações para a alocação dos recursos.

O cenário se afastou das expectativas do início de 2026. Três fatores passaram a dominar a leitura dos mercados: a flexibilização monetária doméstica mais lenta que o projetado, o choque geopolítico no Oriente Médio, com efeitos sobre petróleo e inflação global, e a permanência das incertezas fiscais brasileiras em um ano eleitoral. Em conjunto, esses vetores mantiveram os prêmios de risco elevados, sobretudo nos vencimentos mais longos da curva de juros.

A mudança de cenário aparece nas projeções do Banco Central. Em março, a trajetória extraída da pesquisa Focus apontava Selic de 12,25% ao fim de 2026 e 10,50% em 2027. Em junho, após a confirmação de um ciclo de cortes mais gradual, as projeções passaram para 13,75% e 12,00%, respectivamente. No mesmo intervalo, a expectativa para o IPCA de 2026 subiu de 4,10% para 5,30%, enquanto as projeções de 2027 e 2028 também avançaram, indicando maior persistência inflacionária.

A atualização mais recente do Focus mostra algum alívio em relação às projeções de junho, embora o cenário permaneça mais pressionado que no fim de 2025. Para 2026, as medianas passaram de IPCA de 5,33% e Selic de 14,00% em junho para 5,02% e 13,75% em agosto, enquanto a projeção para o PIB permaneceu próxima de 2,0%. Para 2027, o mercado projeta inflação de 4,24%, Selic de 12,00% e crescimento de 1,50%. Apesar da melhora recente, as expectativas ainda indicam inflação resistente e espaço limitado para cortes de juros.

Nesse ambiente, o Copom iniciou a flexibilização de forma gradual. A Selic caiu de 15,00% para 14,00% a.a. entre março e agosto, após quatro cortes consecutivos de 0,25 ponto percentual. Mesmo com a redução, a política monetária permanece contracionista, com juro real elevado e efeitos restritivos sobre crédito, consumo e investimento.

A Selic, porém, não determina sozinha toda a curva de juros. As taxas de diferentes vencimentos também incorporam expectativas para inflação, atividade, política monetária, contas públicas e prêmio de risco.

Ao final de 2025, a curva indicava queda mais intensa dos juros até 2028. Parte desse movimento foi revertida no primeiro trimestre de 2026. No segundo trimestre, a parte curta acompanhou os cortes do Copom, enquanto os vencimentos intermediários e longos permaneceram pressionados pela inflação e pelo risco fiscal. Isso reforça que a redução da Selic não implica, necessariamente, fechamento de toda a curva.

NO MUNDO

No exterior, o primeiro semestre combinou condições monetárias ainda restritivas, crescimento desigual entre as principais economias e um choque geopolítico com efeitos sobre energia e inflação. Os Estados Unidos mantiveram atividade firme, a Zona do Euro cresceu de forma moderada e a China perdeu ritmo diante da fraqueza da demanda doméstica e do setor imobiliário.

O principal choque veio da escalada militar envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã. A incerteza sobre o Estreito de Hormuz reduziu o tráfego de navios, elevou custos de frete e seguro e acrescentou prêmio geopolítico ao petróleo. Em meados de agosto, o Brent voltou a superar US$ 90 por barril, ampliando o risco de persistência inflacionária e de juros elevados nas economias centrais.

A China também foi afetada por sua forte dependência do petróleo iraniano. Com as restrições no Golfo, as importações marítimas chinesas recuaram e refinadores passaram a buscar rotas e fornecedores alternativos. Além do preço da commodity, o conflito passou a afetar a logística e o processamento de petróleo na maior importadora mundial.

Nos Estados Unidos, a projeção mediana do FOMC para o PIB de 2026 passou de 2,3% em dezembro de 2025 para 2,2% em junho, enquanto a estimativa para o PCE subiu de 2,4% para 3,6%. Em julho, o Fed manteve os Fed Funds entre 3,50% e 3,75% a.a., destacando atividade ainda sólida, inflação acima da meta de 2% e elevada incerteza, reforçando a necessidade de uma postura monetária restritiva.

O diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos, que vinha aumentando desde meados de 2024, começou a recuar com os cortes do Copom. Após a decisão de 5 de agosto, a diferença ficou em aproximadamente 10,25 pontos percentuais, considerando o limite superior dos Fed Funds, ante pico de 11,25 pontos em fevereiro. O diferencial favorece a atratividade relativa dos ativos brasileiros, mas não elimina os prêmios associados aos riscos fiscal e inflacionário.

Nos Estados Unidos, a inflação ao consumidor acumulou 3,4% em 12 meses até julho, ante 3,5% em junho. O núcleo desacelerou de 2,6% para 2,5%, enquanto energia ainda avançava 14,7% em 12 meses. A desinflação, portanto, segue acompanhada de riscos ligados ao choque energético.

Os investimentos ligados à Inteligência Artificial também sustentaram a atividade e os resultados de grandes companhias norte-americanas. O avanço de centros de dados, semicondutores, softwares, energia e infraestrutura digital pode elevar a produtividade, mas exige grande volume de capital e financiamento.

Para os emergentes, juros elevados nos Estados Unidos aumentam o retorno mínimo exigido pelos investidores e, consequentemente, o prêmio necessário para direcionar recursos a mercados como o brasileiro, com efeitos sobre câmbio e curva de juros doméstica.

Na Zona do Euro, após elevar as taxas em junho, o Banco Central Europeu manteve-as inalteradas em julho: 2,25% na facilidade de depósito, 2,40% nas operações principais de refinanciamento e 2,65% na facilidade marginal de crédito. O BCE reforçou a cautela diante da incerteza e dos possíveis efeitos do choque de energia sobre a inflação.

Na China, o PIB cresceu 4,7% no primeiro semestre frente ao mesmo período de 2025, mas desacelerou para 4,3% no segundo trimestre. Serviços, exportações e setores de maior intensidade tecnológica seguiram como suporte, enquanto mercado imobiliário e demanda doméstica permaneceram frágeis. Para o Brasil, esse menor ritmo pode afetar preços e demanda por minério de ferro, petróleo e produtos agropecuários.

NO BRASIL

No Brasil, a Selic recuou ao longo do ano, mas permaneceu elevada diante da inflação e das expectativas, mantendo a política monetária em território contracionista.

Com Selic de 14,00% e IPCA de 4,44% em 12 meses, a aproximação simples do juro real utilizada no gráfico resulta em 9,56 pontos percentuais. Esse patamar favorece ativos conservadores, mas encarece o crédito e limita consumo e investimento.

Apesar do aperto monetário, o PIB cresceu 1,1% no primeiro trimestre frente aos três meses anteriores e 1,8% em relação ao mesmo período de 2025. A taxa de desocupação caiu de 6,1% no primeiro trimestre para 5,4% no segundo, mantendo o mercado de trabalho aquecido.

Os dados mais recentes, contudo, indicam moderação. Em junho, a produção industrial recuou 1,8% frente a maio, os serviços ficaram estáveis e o comércio varejista avançou 0,5%. O quadro não aponta contração generalizada, mas sugere perda de ritmo compatível com os efeitos defasados da política monetária.

O IPCA avançou 0,07% em julho, acumulando 3,44% no ano e 4,44% em 12 meses, abaixo dos 4,64% de junho e ligeiramente abaixo do limite superior de 4,50% do intervalo de tolerância da meta. Apesar do alívio, o Focus ainda projeta inflação de 5,02% em 2026 e 4,24% em 2027, mantendo as expectativas desancoradas.

O quadro fiscal também continuou pressionando os vencimentos intermediários e longos da curva. Em junho, o setor público consolidado registrou déficit primário de R$ 55,3 bilhões. Em 12 meses, o déficit chegou a R$ 157,2 bilhões (1,19% do PIB), os juros nominais a R$ 1,16 trilhão (8,80% do PIB) e a Dívida Bruta do Governo Geral a 81,9% do PIB.

O gráfico mostra que o avanço das despesas do Governo Central se concentra nas obrigatórias, enquanto as discricionárias possuem peso menor. Essa composição reduz a flexibilidade para ajustes rápidos. Somados ao endividamento e ao elevado custo financeiro, esses fatores ajudam a manter os prêmios de risco altos e tornam mais desafiadora a estabilização da dívida.

DESEMPENHO DOS ATIVOS NO 1º SEMESTRE

O cenário ajuda a explicar a dispersão dos retornos no primeiro semestre. Na renda fixa, estratégias de menor duration, como o IRF-M 1, ficaram menos expostas às oscilações dos vértices longos e se beneficiaram do nível elevado dos juros. Já índices como IRF-M 1+ e IMA-B 5+ permaneceram mais sensíveis às mudanças nas expectativas de inflação, fiscal e política monetária.

Na renda fixa, a duration foi determinante para a diferença de desempenho entre os índices. Na renda variável doméstica e internacional, os resultados refletiram as condições financeiras, fatores específicos de mercado e, nas aplicações externas sem hedge, a variação cambial.

O retorno histórico, portanto, deve ser analisado em conjunto com volatilidade, liquidez, aderência ao passivo, função da estratégia na carteira e perspectivas econômicas, e não de forma isolada.

PERSPECTIVAS PARA O RESTANTE DE 2026

Em um ano de eleições gerais, o componente fiscal tende a ganhar peso na formação dos preços. A proximidade do primeiro turno, em 4 de outubro, aumenta a sensibilidade do mercado às sinalizações sobre gastos, receitas e regras fiscais para 2027, especialmente diante do peso das despesas obrigatórias e da trajetória da dívida.

O PLDO de 2027 estabelece meta de superávit primário de 0,50% do PIB, equivalente a R$ 73,2 bilhões, e projeta dívida bruta de 86% do PIB. O cumprimento da trajetória fiscal exigirá combinação de receitas e contenção do crescimento das despesas. Medidas aprovadas em agosto sinalizaram avanço, mas a estabilização da dívida ainda depende da continuidade e da credibilidade do ajuste.

Na política monetária, o Banco Central segue atento à inflação e às expectativas ainda afastadas da meta. A condução dos próximos passos deverá continuar dependente da persistência dos preços, dos efeitos dos choques e da evolução da atividade.

Para o restante de 2026, o cenário-base permanece de flexibilização monetária gradual. Um arrefecimento do conflito e do petróleo, acompanhado de melhora das expectativas, poderia reduzir prêmios de risco. Por outro lado, a persistência do choque energético ou uma piora fiscal pode manter a parte longa da curva pressionada mesmo com novos cortes da Selic.

IMPLICAÇÕES PARA OS RPPS

Para os RPPS, o ambiente combina oportunidades e riscos. A abertura da curva eleva a remuneração de novas aplicações, mas aumenta a volatilidade dos ativos marcados a mercado. Por isso, a decisão de investimento deve considerar horizonte, liquidez, fluxo previdenciário e capacidade de manutenção das posições.

As taxas domésticas ainda permitem buscar a meta atuarial com estratégias de risco controlado, desde que a alocação seja compatível com as obrigações do regime e com sua Política de Investimentos.

RENDA FIXA

Títulos públicos adquiridos diretamente ou por meio de fundos de vértice permanecem atrativos quando seus vencimentos são compatíveis com o fluxo do RPPS. As taxas reais elevadas permitem contratar retornos por prazos mais longos e reduzir o risco de reinvestimento, desde que haja capacidade de carregar os ativos até o vencimento.

Nos ativos marcados a mercado, a duration deve ser compatível com o horizonte e a tolerância a risco. Há espaço para exposições graduais em IMA-B 5, IMA-B e IRF-M, enquanto estratégias mais longas, como IRF-M 1+ e IMA-B 5+, apresentam maior sensibilidade à curva. Posições existentes não devem ser resgatadas apenas por oscilações de curto prazo, salvo mudança de fundamentos, enquadramento, ALM ou necessidade de liquidez.

Os pós-fixados referenciados ao CDI continuam relevantes para estabilidade e liquidez, favorecidos pelo nível da Selic. No crédito privado, a orientação é de maior seletividade: o prêmio adicional deve compensar adequadamente os riscos de crédito, liquidez e concentração, sobretudo após a compressão parcial dos spreads.

A decisão entre prefixados e ativos indexados à inflação deve considerar a inflação implícita e o horizonte da carteira. Eventuais fechamentos da curva podem favorecer estratégias de duration intermediária, mas a maior volatilidade exige alocações controladas.

RENDA VARIÁVEL

Na renda variável doméstica, os juros elevados aumentam o custo de capital e a taxa de desconto dos ativos. Ainda assim, não se recomenda eliminar posições apenas em razão da volatilidade. A alocação deve respeitar o perfil de risco e o horizonte de longo prazo, com preferência por estratégias expostas a empresas de fundamentos sólidos, geração recorrente de caixa e menor endividamento.

No exterior, o desempenho segue influenciado pelas empresas ligadas à Inteligência Artificial e pelo câmbio. A desvalorização do dólar no contexto internacional reduziu o retorno de ativos sem hedge, como o BDRX, enquanto o fluxo de capital estrangeiro também afetou a bolsa brasileira.

O avanço de semicondutores, centros de dados, softwares e infraestrutura digital sustentou grandes empresas, mas aumentou a concentração dos principais índices. Embora as líderes atuais apresentem fundamentos mais sólidos que muitas empresas da bolha de tecnologia dos anos 1990, permanece o risco de as cotações embutirem crescimento excessivamente otimista.

A diversificação internacional continua relevante, mas deve ser feita com cautela, evitando concentração excessiva e observando a sobreposição entre fundos, a qualidade dos ativos e o risco cambial. Na renda variável como um todo, os percentuais devem permanecer compatíveis com o perfil de risco do RPPS.

RESUMO DA ESTRATÉGIA PROPOSTA

Diante das condições atuais, entende-se como adequada a manutenção de uma parcela relevante da carteira em ativos conservadores de renda fixa, especialmente estratégias pós-fixadas referenciadas ao CDI e prefixadas de curto prazo atreladas ao IRF-M 1, que continuam favorecidas pelo patamar elevado dos juros e apresentam retorno aderente à meta atuarial com baixa volatilidade. Ao mesmo tempo, permanecem atrativas as oportunidades em títulos públicos indexados à inflação com marcação na curva, desde que haja compatibilidade entre os vencimentos dos ativos e o fluxo projetado do RPPS.

Também há espaço para alocações graduais e controladas em estratégias de duration intermediária, como IMA-B 5, IMA-B e IRF-M, enquanto exposições de maior duration, como IRF-M 1+ e IMA-B 5+, apresentam relação risco-retorno menos favorável no cenário atual.

No crédito privado, a orientação é de maior seletividade, considerando a compressão parcial dos spreads e a necessidade de avaliar se o prêmio adicional compensa adequadamente os riscos envolvidos. Na renda variável, tanto doméstica quanto internacional, a recomendação é preservar exposições compatíveis com o perfil de risco do RPPS, utilizando esses segmentos como instrumentos de diversificação, sem concentração excessiva e com atenção à qualidade dos ativos, à volatilidade e, no exterior, também ao risco cambial. De forma geral, as decisões de alocação devem permanecer condicionadas à Resolução CMN nº 5.272/2025, à Política de Investimentos, ao ALM, às necessidades de liquidez e ao perfil de risco do RPPS.

ELABORAÇÃO

Eduarda Benício

REVISÃO

Felipe Mafuz

Álvaro Dezidério

EDIÇÃO

André Vianna

DISCLAMER

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