Política fiscal e monetária no centro do debate na Expert XP 2026

As participações do ministro da Fazenda, Dario Durigan, e do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, na Expert XP 2026 ocorreram em painéis separados, mas apresentaram pontos de convergência importantes sobre os desafios da economia brasileira. Enquanto Durigan concentrou sua exposição na trajetória das contas públicas, na sustentabilidade das despesas e na necessidade de ampliar a confiança dos investidores, Galípolo abordou a dinâmica da inflação, a formação das expectativas e as condições necessárias para a condução da política monetária.

Na área fiscal, Durigan reafirmou o compromisso do governo com a melhoria do resultado primário e informou que a proposta orçamentária para 2027 deverá considerar superávit de 0,5% do Produto Interno Bruto. Segundo o ministro, o resultado primário teria passado por um ajuste nos últimos anos, com redução gradual do déficit. Ele também classificou o equilíbrio fiscal como elemento central para tornar a economia mais robusta, reduzir incertezas e criar condições para a diminuição dos juros.

Durigan reconheceu, contudo, que a continuidade do ajuste exigirá medidas sobre a estrutura das despesas públicas. Entre os principais desafios para os próximos anos, destacou a necessidade de desacelerar o crescimento dos gastos obrigatórios, que restringem o espaço disponível para despesas discricionárias e investimentos públicos. A proposta apresentada consiste em combinar maior controle das despesas permanentes com investimentos focalizados, capazes de atrair capital privado e ampliar a capacidade de crescimento da economia.

Outro ponto de sua palestra foi a busca por previsibilidade institucional. Diante de especulações ocorridas no período eleitoral, Durigan afirmou que o governo não adotará medidas de controle de capitais, diferenciando eventuais alterações na supervisão e na regulamentação do sistema financeiro de restrições à circulação de recursos. A declaração procurou transmitir segurança aos investidores e reforçar a intenção de posicionar o Brasil como destino de capital em um ambiente internacional marcado por incertezas econômicas e geopolíticas.

Na palestra sobre política monetária, Galípolo concentrou parte relevante de sua apresentação na metodologia utilizada pelo Banco Central para acompanhar as expectativas de inflação. O presidente da autoridade monetária apresentou instrumentos como o Boletim Focus e a Pesquisa Firmus, esta última realizada com empresas do setor não financeiro. A exposição buscou demonstrar que as decisões do Banco Central não são baseadas exclusivamente nas projeções de bancos e gestores de recursos, mas em diferentes fontes de informação sobre preços, crédito, atividade econômica e estabilidade financeira.

Os dados apresentados indicaram que as expectativas das empresas permaneciam próximas ou, em algumas janelas, acima das projeções dos agentes do mercado financeiro. Na Pesquisa Firmus, a expectativa mediana para o IPCA de 2026 estava em 5,0%, enquanto o Focus apontava aproximadamente 5,1%. Para 2027, ambas as pesquisas indicavam inflação de 4,0%, ainda acima do centro da meta. Para Galípolo, esse comportamento enfraquece a hipótese de que as projeções do mercado seriam deliberadamente elevadas para induzir o Banco Central a manter juros mais altos.

Galípolo também rejeitou a interpretação de que juros elevados beneficiariam de maneira generalizada o mercado financeiro. Como a taxa de juros é utilizada para descontar os fluxos futuros dos ativos, sua elevação tende a reduzir o valor presente de ações e títulos. Mesmo para os bancos, os efeitos não seriam necessariamente favoráveis, pois parte relevante das captações acompanha rapidamente a Selic, enquanto a remuneração das operações de crédito depende de prazos, riscos e condições específicas.

Quanto à condução da política monetária, o presidente do Banco Central reafirmou a necessidade de manutenção dos juros em nível restritivo por um período prolongado. Segundo Galípolo, mesmo após a elevação da taxa básica para um patamar mais contracionista, as expectativas de inflação continuaram afastadas da meta. Nesse contexto, o Banco Central deve avaliar não apenas choques pontuais de preços, mas principalmente seus efeitos de segunda ordem, especialmente em uma economia com atividade resiliente e mercado de trabalho aquecido.

Entre os riscos internacionais, Galípolo mencionou os preços do petróleo, o fenômeno El Niño e os investimentos relacionados à inteligência artificial. Sobre a IA, destacou uma combinação de efeitos potencialmente contraditórios: no curto prazo, a expansão dos investimentos em infraestrutura, tecnologia e energia pode pressionar custos e preços; no longo prazo, os ganhos de produtividade podem elevar a capacidade de produção, embora também possam alterar a renda, o emprego e a demanda agregada.

A conexão entre as duas palestras está na relação entre credibilidade fiscal, expectativas de inflação e política monetária. Durigan apresentou a consolidação fiscal como condição para reduzir incertezas, atrair investimentos e contribuir para juros mais baixos. Galípolo, por sua vez, indicou que a flexibilização monetária depende da convergência efetiva da inflação e de suas expectativas para a meta. Portanto, uma melhora das contas públicas não produz automaticamente uma redução da Selic, mas pode colaborar para diminuir os prêmios de risco, estabilizar as expectativas, reduzir pressões cambiais e tornar o processo de desinflação menos custoso. Em conjunto, as exposições indicaram que a redução sustentável dos juros exige avanços simultâneos em diferentes frentes. Cabe à política fiscal apresentar resultados, controlar o crescimento das despesas obrigatórias e preservar a previsibilidade institucional. À política monetária compete manter as condições necessárias para reconduzir a inflação à meta, evitando uma flexibilização baseada apenas em indicadores pontuais. A mensagem comum foi a de que crescimento, estabilidade de preços e sustentabilidade da dívida dependem da credibilidade das instituições e da consistência das políticas econômicas ao longo do tempo.