Panorama Econômico – 14.04.2026

RESUMO

No Brasil, a atividade mostrou resiliência no primeiro trimestre, mas perdeu fôlego em março, enquanto o mercado de trabalho seguiu sólido e o quadro fiscal pressionado. No exterior, os Estados Unidos tiveram recuperação pontual no emprego, porém com atividade mais fraca e Fed cauteloso. Na zona do euro, a inflação acelerou em meio às tensões no Oriente Médio. Já na China, a indústria avançou, embora a demanda doméstica tenha seguido enfraquecida.

NO BRASIL

O Banco Central divulgou o IBC-Br de janeiro, com alta de 0,8% frente a dezembro, sinalizando retomada da atividade no início de 2026, após a fraqueza observada no fim do ano anterior. O resultado foi puxado por serviços e indústria, com altas de 0,8% e 0,4%, respectivamente, enquanto a agropecuária recuou 1,5%. Apesar da recuperação, o dado veio levemente abaixo das expectativas de mercado. Por outro lado, o PMI Composto recuou de 51,3 em fevereiro para 49,9 pontos em março, indicando enfraquecimento da atividade ao fim do primeiro trimestre.

O mercado de trabalho seguiu resiliente no início de 2026. Em fevereiro, o Novo Caged registrou abertura líquida de 255,3 mil vagas formais, com destaque para o setor de serviços. Já pela PNAD Contínua, a taxa de desocupação ficou em 5,8% no trimestre encerrado em fevereiro, acima dos 5,4% do trimestre anterior, mas ainda no menor nível da série histórica para esse período.

Já o Índice de Confiança do Consumidor (ICC) voltou a apresentar melhora em março, após dois meses consecutivos de queda. O movimento foi puxado pela melhora das expectativas para os próximos meses, enquanto o Índice de Situação Atual (ISA) recuou. Em conjunto, os dados sinalizam redução do pessimismo das famílias, favorecida por fatores como manutenção do emprego e da renda e recuo recente dos juros.

No campo inflacionário, o IPCA avançou 0,88% em março, acelerando após 0,70% em fevereiro, enquanto a inflação acumulada em doze meses subiu para 4,14%, permanecendo dentro do intervalo de tolerância da meta. No mês, Transportes e Alimentação e bebidas lideraram as pressões, com altas de 1,64% e 1,56%, respectivamente, puxadas pelos combustíveis e pelos alimentos no domicílio. Também houve avanço em Despesas pessoais (0,65%), Saúde e cuidados pessoais (0,42%) e Habitação (0,22%), indicando disseminação das pressões inflacionárias.

No dia 24 de março foi divulgada a ata do Copom da reunião de 17 e 18 de março, na qual a Selic foi reduzida de 15,00% para 14,75% ao ano. O Comitê ressaltou a maior incerteza no cenário externo, a moderação da atividade doméstica, a resiliência do mercado de trabalho e a inflação ainda acima do centro da meta, assim como as expectativas para 2026 e 2027. Diante desse quadro, justificou o corte de 0,25 p.p., mantendo sinalização cautelosa para os próximos passos da política monetária.

No campo fiscal, o setor público consolidado registrou déficit primário de R$ 16,4 bilhões em fevereiro, mantendo o quadro de fragilidade das contas públicas, ainda que com resultado ligeiramente melhor do que no mesmo mês de 2025. O desempenho refletiu principalmente o déficit do Governo Central, parcialmente compensado pelo superávit dos Governos regionais. No período, a Dívida Bruta do Governo Geral subiu para 79,2% do PIB, ante 78,7% no mês anterior, enquanto a Dívida Líquida do Setor Público avançou para 65,5% do PIB.

Apesar do ambiente marcado por incertezas macroeconômicas, os fluxos de capital estrangeiro seguiram relevantes em fevereiro. No mês, o investimento direto no país (IDP) somou US$ 6,8 bilhões, embora abaixo das expectativas de mercado. No acumulado de 2026, a entrada líquida de IDP alcançou US$ 14,9 bilhões, enquanto, em 12 meses, totalizou US$ 75,9 bilhões, o equivalente a 3,24% do PIB, sinalizando a manutenção de fluxo externo relevante para a economia brasileira.

NO MUNDO

Nos Estados Unidos, o mercado de trabalho apresentou recuperação em março, com criação de 178 mil vagas fora do setor agrícola, após fechamento de 133 mil postos em fevereiro. A taxa de desemprego recuou para 4,3%, ante 4,4% no mês anterior. Ainda assim, o quadro agregado segue apontando moderação do mercado de trabalho, em linha com a desaceleração gradual da economia norte-americana.

Já os indicadores de atividade mostraram comportamento misto em março, com avanço da indústria e contração dos serviços. Nesse contexto, o PMI Composto recuou de 51,9 para 50,3 pontos, sinalizando perda de fôlego da economia norte-americana, ainda que permaneça no campo de expansão.

Neste contexto, o Federal Reserve (Fed) optou por manter a taxa de juros no intervalo de 3,50% a 3,75% ao ano em sua reunião de março. A decisão refletiu a avaliação de uma atividade econômica sólida, embora o mercado de trabalho apresente baixo crescimento e a inflação persista. Adicionalmente, o acirramento da guerra no Oriente Médio e a elevação dos preços do petróleo ampliaram as preocupações quanto aos impactos inflacionários. Assim, embora o Fed ainda mantenha a previsão de um corte de 0,25 p.p. em 2026, a condução da política monetária segue cautelosa.

Na Zona do Euro, o cenário inflacionário voltou a mostrar aceleração em março, com o índice anual avançando para 2,5%, após 1,9% em fevereiro, ainda que abaixo das expectativas. O movimento ocorreu em meio ao agravamento das tensões no Oriente Médio, que pressionaram o ambiente externo e contribuíram para a inflação ficar acima da meta de 2% do Banco Central Europeu (BCE). Em contrapartida, o núcleo da inflação recuou marginalmente em doze meses, de 2,4% para 2,3%.

Já os dados da pesquisa PMI da S&P Global indicaram perda de fôlego da atividade na zona do euro em março, ainda que o bloco tenha permanecido em território de expansão. O resultado refletiu a desaceleração do setor de serviços, enquanto a indústria apresentou avanço. Em conjunto, o índice composto recuou de 51,9 para 50,7 pontos, atingindo o menor nível em nove meses e sinalizando crescimento mais tímido da atividade econômica.

Nesse contexto, o BCE manteve a taxa básica de juros em 2,0% a.a. em março, preservando postura cautelosa diante do aumento das incertezas no cenário externo. A autoridade monetária também destacou que o agravamento do conflito no Oriente Médio elevou os riscos inflacionários, especialmente via energia, ao mesmo tempo em que ampliou os riscos de desaceleração do crescimento econômico na região.

Na China, os dados mostraram um início de ano mais favorável, com produção industrial e lucros do setor avançando 6,3% e 15,2%, respectivamente, no primeiro bimestre. O resultado reforça a resiliência da manufatura, sustentada pela demanda externa e pelos estímulos adotados por Pequim, embora persistam incertezas quanto à continuidade desse desempenho.

O cenário inflacionário mostrou aceleração em fevereiro, com o índice de preços ao consumidor chinês avançando 1,3% em relação ao mesmo mês do ano anterior, após alta de 0,2% em janeiro, influenciado sobretudo pelos efeitos do Ano Novo Lunar sobre o consumo das famílias. Em contrapartida, a deflação ao produtor persistiu. No campo monetário, as autoridades mantiveram inalteradas, em março, as taxas de empréstimo de um e cinco anos, em 3,0% e 3,5%, respectivamente.

No campo geopolítico, março foi marcado pelo acirramento do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã, o que elevou a aversão ao risco nos mercados e pressionou os preços do petróleo, com o WTI subindo 51,27% no mês. Nesse contexto, as atenções permanecem voltadas à escalada do conflito e aos potenciais impactos globais, especialmente no que se refere à inflação e cadeias globais.

INVESTIMENTOS

Fonte: Quantum Axis. Elaboração: LEMA

Os mercados apresentaram, em geral, desempenho abaixo do necessário para o atingimento da meta atuarial no mês de março, com os ativos de renda variável internacional apresentaram as maiores quedas, enquanto os ativos domésticos exibiram comportamento misto, com melhor desempenho dos índices de renda fixa de menor duration.

Os índices IMA-B 5 (1,39%) e IDkA IPCA 2 anos (1,39%) apresentaram os melhores desempenhos, enquanto os ativos mais conservadores, como CDI (1,21%) e IRF-M 1 (1,02%), apresentaram resultados positivos, ainda que com maior dificuldade em superar a meta no período, em reflexo à alta do IPCA. Por outro lado, os destaques negativos na renda fixa foram os índices de maior duration, com IRF-M 1+ e IMA-B 5+ apresentando retornos de -1,21% e -0,78%, respectivamente.

Na renda variável, o mercado acionário nacional apresentou desempenho negativo no mês, com o Ibovespa registrando variação de -0,70%. Ainda assim, no acumulado do ano a rentabilidade permanece em patamar positivo, de 16,35%. O S&P 500, por sua vez, caiu 5,09%, após queda de 0,87% no mês anterior, enquanto o Global BDRX acompanhou com recuo de 3,67% em março.

De forma geral, março foi um mês menos favorável para a maioria dos ativos, especialmente na renda variável, com o desempenho dos ativos sendo impactado negativamente pela maior volatilidade nos mercados internacionais, em grande parte associada às tensões no Oriente Médio e à elevação da aversão ao risco a nível global.

CONCLUSÃO

Fonte: Comdinheiro. Elaboração: LEMA

Conforme evidenciado no gráfico, a curva de juros apresentou, ao longo de março de 2026, um movimento de abertura em todos os vértices, refletindo a elevação dos prêmios exigidos pelo mercado. Esse comportamento indica uma piora na percepção de risco, associada, entre outros fatores, à revisão das expectativas quanto à trajetória da política monetária, ao ambiente inflacionário e às incertezas no cenário externo.

Nos vértices curtos e intermediários a curva demonstrou abertura mais significativa, com movimentos expressivos. Tal dinâmica está relacionada à reprecificação das expectativas para a condução da taxa básica de juros, com o mercado passando a projetar um ritmo mais lento de cortes na Selic, em reflexo às projeções de novas pressões inflacionárias.

Destaca-se que o período foi marcado por elevada volatilidade, com movimentos de abertura ao longo do mês. Elementos como as tensões geopolíticas e as oscilações nos preços de commodities seguiram exercendo pressão sobre a curva, mantendo o nível de incerteza elevado quanto à trajetória futura dos juros.

No Brasil, apesar do início do ciclo de queda da Selic, há incerteza relevante quanto à intensidade do afrouxamento monetário no curto prazo. A inflação acumulada continua dentro da margem de tolerância, porém, as expectativas seguem acima do centro da meta, enquanto o quadro fiscal e a proximidade do ciclo eleitoral de 2026 continuam sustentando prêmio relevante nos ativos domésticos.

Com isso, diante de um cenário caracterizado por juros elevados e pela expectativa de alta volatilidade ao longo de 2026, a adoção de estratégias de perfil mais conservador segue atrativa. Nesse contexto, observa-se que fundos atrelados ao CDI continuam apresentando desempenho consistente, beneficiados pelo elevado patamar dos juros reais.

Por fim, a alocação direta em títulos públicos atrelados à inflação, com marcação na curva, permanece como alternativa relevante, em função das taxas atualmente praticadas, que permitem retornos superiores à meta atuarial, além de proporcionar maior controle do risco de mercado da carteira como um todo.

BRASIL202620272028
PIB (% de crescimento real)1,851,802,00
IPCA (em %)4,363,853,60
IGP-M (em %)3,734,003,85
Taxa de Câmbio final (R$/US$)5,405,455,50
Taxa Selic (final do ano – em %)12,5010,5010,00
Taxa de Juros Real (deflacionado IPCA – em %)7,806,406,17

Fonte: Focus (06/04/2026)

ELABORAÇÃO

Davi Nascimento

Murilo Lima

REVISÃO

Felipe Mafuz

EDIÇÃO

Jefferson Privino

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