RESUMO
Em agosto, a economia brasileira seguiu em ritmo mais moderado, com sinais distintos entre os setores, inflação mais contida e mercado de trabalho ainda resiliente. A política monetária permaneceu restritiva, mesmo com a redução da Selic, enquanto o quadro fiscal continuou como ponto de atenção. No exterior, os Estados Unidos mantiveram atividade firme e inflação ainda elevada, a zona do euro apresentou crescimento moderado em meio à aceleração dos preços, e a China mostrou alguma melhora na atividade industrial. O ambiente global também permaneceu sensível às tensões geopolíticas e aos seus efeitos sobre os mercados de energia.
NO BRASIL
A atividade econômica brasileira apresentou sinais de moderação ao longo do segundo trimestre, período em que o PIB cresceu 0,5% em relação aos três meses anteriores, após avanço de 1,1% no primeiro trimestre. Em agosto, os indicadores antecedentes mostraram um quadro misto. O PMI Composto subiu de 48,8 para 49,1 pontos, mas permaneceu no campo de contração pelo segundo mês consecutivo. Na indústria, o PMI recuou de 47,5 para 46,3 pontos, menor nível desde abril de 2023, refletindo a retração da produção e dos novos pedidos. Em sentido contrário, o PMI de Serviços avançou de 49,7 para 50,5 pontos, retornando ao campo de expansão. Em conjunto, os dados reforçam a perda de ritmo da economia, com os serviços oferecendo algum suporte, enquanto a indústria permanece pressionada pelo enfraquecimento da demanda e pelo elevado custo do crédito.
No mercado de trabalho, os indicadores permaneceram favoráveis. A taxa de desocupação recuou para 5,3% no trimestre encerrado em julho, ante 5,8% no trimestre encerrado em abril, atingindo o menor nível para trimestres terminados em julho desde o início da série histórica. A população ocupada alcançou 103,3 milhões de pessoas, maior contingente da série, enquanto a taxa de subutilização caiu para 13,0%. Assim, mesmo diante da moderação da atividade econômica, o mercado de trabalho segue resiliente e permanece como importante vetor de sustentação da renda e do consumo das famílias.
Já o Índice de Confiança do Consumidor recuou pelo quarto mês consecutivo em agosto, com queda de 3,6 pontos, para 84,7 pontos, menor nível desde novembro de 2022. Na média móvel trimestral, o indicador caiu para 87,2 pontos. O resultado refletiu tanto a piora da percepção sobre a situação atual quanto, principalmente, a deterioração das expectativas, cujo indicador recuou 5,4 pontos. O movimento evidencia maior cautela das famílias diante do elevado endividamento, da inadimplência e das condições ainda restritivas de crédito, podendo sinalizar menor dinamismo do consumo ao longo do segundo semestre.
No campo inflacionário, o IPCA registrou queda de 0,32% em agosto, após alta de 0,07% em julho. Com o resultado, o índice acumulou 3,11% no ano e 4,22% em 12 meses, abaixo dos 4,44% observados anteriormente. A deflação foi influenciada principalmente pelo grupo Habitação, que recuou 1,87%, com destaque para a queda de 7,63% da energia elétrica residencial, refletindo o efeito do Bônus de Itaipu. Também contribuíram para o resultado as quedas em Transportes (-0,86%), influenciado pela redução das passagens aéreas e dos combustíveis, e em Alimentação e bebidas (-0,34%). Dessa forma, a inflação acumulada em 12 meses permaneceu dentro do intervalo de tolerância da meta, cujo teto é de 4,5%, embora ainda acima do centro de 3,0%.
No campo da política monetária, o Copom reduziu a Selic para 14,00% ao ano na reunião realizada nos dias 4 e 5 de agosto. Na ata divulgada posteriormente, o Comitê avaliou que a atividade econômica apresenta moderação gradual, enquanto o mercado de trabalho permanece resiliente. A autoridade monetária destacou ainda que as expectativas de inflação continuam acima da meta e que o ambiente permanece marcado por elevado grau de incerteza. Nesse contexto, o Banco Central reforçou que a magnitude dos próximos movimentos dependerá da evolução do cenário e das novas informações disponíveis.
No âmbito fiscal, os dados referentes a julho mostraram melhora do resultado primário no mês, embora o endividamento tenha continuado avançando. O setor público consolidado registrou superávit primário de R$ 1,4 bilhão, enquanto, no acumulado em 12 meses, permaneceu deficitário em R$ 89,3 bilhões, equivalente a 0,67% do PIB. O resultado nominal apresentou déficit de R$ 97,6 bilhões em julho e de aproximadamente R$ 1,24 trilhão em 12 meses. A Dívida Bruta do Governo Geral avançou de 81,9% para 82,5% do PIB, enquanto a Dívida Líquida do Setor Público subiu para 69,1% do PIB. Nesse contexto, o quadro fiscal permanece como importante ponto de atenção, principalmente diante do elevado custo de carregamento da dívida e de sua trajetória crescente.
Apesar das incertezas domésticas, o Investimento Direto no País permaneceu positivo em julho, com ingressos líquidos de US$ 7,5 bilhões, ante US$ 8,4 bilhões no mesmo período do ano anterior. No acumulado em 12 meses, o IDP atingiu US$ 88,4 bilhões, equivalente a 3,50% do PIB, ligeiramente abaixo dos US$ 89,3 bilhões registrados até junho. O volume permanece relevante e indica continuidade do ingresso de recursos destinados a investimentos de longo prazo, embora em ritmo um pouco mais moderado na comparação com o mês anterior.
No mercado acionário, o fluxo de investidores estrangeiros apresentou forte reversão em agosto. Após entrada líquida em julho, os estrangeiros retiraram aproximadamente R$ 18,12 bilhões do mercado secundário da B3 ao longo do mês, reduzindo significativamente o saldo positivo acumulado no ano. O movimento ocorreu em meio ao aumento das incertezas fiscais e eleitorais e contribuiu para pressionar o mercado acionário brasileiro durante boa parte do período. Apesar da recuperação observada nos últimos pregões, o Ibovespa encerrou agosto com queda de 0,33%.
No mercado de câmbio, o dólar voltou a se valorizar frente ao real em agosto, encerrando o mês próximo de R$ 5,18, com alta de aproximadamente 2,22% no período. O movimento refletiu, entre outros fatores, a saída de capital estrangeiro, as incertezas domésticas e as oscilações do cenário internacional. Ainda assim, a moeda norte-americana permaneceu em queda no acumulado do ano, encerrando agosto com desvalorização de aproximadamente 5,32% frente ao real desde o início de 2026.
NO MUNDO
Nos Estados Unidos, os dados mais recentes reforçaram a percepção de uma economia ainda resiliente, embora com crescimento mais moderado. A segunda estimativa do PIB do segundo trimestre confirmou expansão anualizada de 1,5%, abaixo dos 2,1% observados no primeiro trimestre, sustentada principalmente pelos avanços do consumo, das exportações e dos investimentos. No mercado de trabalho, o payroll registrou criação de 162 mil vagas em agosto, acima das expectativas, enquanto a taxa de desemprego permaneceu em 4,1%. No campo inflacionário, o índice de preços PCE avançou 0,2% em julho e permaneceu em 3,7% na comparação anual, mesmo nível observado em junho, enquanto o núcleo do indicador ficou em 3,3% em 12 meses. Apesar da estabilidade na comparação anual, a inflação segue acima da meta de 2% do Federal Reserve.
Diante desse cenário, a taxa de juros dos Estados Unidos permaneceu no intervalo entre 3,50% e 3,75% ao ano, após a decisão do Fed na reunião de julho. Em agosto, os indicadores antecedentes reforçaram a resiliência da atividade, com o PMI Composto avançando para 56,0 pontos, maior nível desde abril de 2022, impulsionado principalmente pelo setor de serviços, que atingiu 56,5 pontos, enquanto o PMI Industrial permaneceu em 53,9 pontos. Ao longo do mês, diante da inflação ainda elevada, dos riscos associados aos preços de energia e da atividade mais firme, aumentaram as expectativas de uma nova elevação dos juros. Em conjunto, os dados indicam uma economia ainda resiliente e um cenário de maior cautela quanto aos próximos passos da política monetária.
Na zona do euro, a inflação voltou a acelerar em agosto, passando de 2,9% para 3,3% em 12 meses, permanecendo acima da meta de 2% do Banco Central Europeu. O movimento refletiu principalmente a maior pressão dos preços de energia, cuja inflação anual avançou de 10,3% para 14,3%, enquanto a inflação de serviços desacelerou de 3,3% para 3,0%. No campo da atividade, o PMI Composto permaneceu em 52,0 pontos, indicando continuidade da expansão, enquanto o PMI de Serviços recuou levemente para 51,6 pontos. Em conjunto, os dados sinalizam crescimento moderado da atividade, ainda condicionado pelas pressões inflacionárias e pelas incertezas relacionadas ao cenário energético.
Nesse contexto, em agosto, as taxas de juros do Banco Central Europeu permaneceram em 2,25% na facilidade de depósito, taxa que remunera os recursos mantidos pelos bancos junto ao BCE, 2,40% nas operações principais de refinanciamento e 2,65% na facilidade de empréstimo marginal, utilizada quando os bancos precisam obter recursos do BCE por um prazo curto. A autoridade monetária manteve postura cautelosa diante da inflação ainda acima da meta e das incertezas associadas ao cenário econômico, reforçando que os próximos movimentos dependerão da evolução dos dados e das perspectivas para a inflação.
Na China, o PMI industrial privado avançou de 50,9 para 51,5 pontos em agosto, permanecendo no campo de expansão e indicando melhora do ritmo da atividade industrial. O resultado refletiu maior crescimento da produção e dos novos pedidos, além da recuperação das encomendas externas. No campo monetário, o Banco Popular da China manteve as principais taxas de referência pelo 15º mês consecutivo, com a LPR de um ano em 3,00% e a de cinco anos em 3,50%. A manutenção das taxas ocorreu em um ambiente de demanda doméstica ainda moderada, com as autoridades priorizando outras medidas de apoio à economia e preservando espaço para eventuais estímulos adicionais.
No campo geopolítico, agosto permaneceu marcado pelas tensões no Oriente Médio, com destaque para o conflito envolvendo Estados Unidos e Irã e para as restrições ao transporte de petróleo pelo Estreito de Ormuz. Ao longo do mês, ataques a embarcações e a forte redução do tráfego na região ampliaram as preocupações com a oferta global de energia e mantiveram os preços do petróleo voláteis. Nesse ambiente, a Opep+ aprovou um ajuste de 188 mil barris por dia na produção a partir de setembro, dando continuidade à retirada gradual dos cortes voluntários. Ainda assim, as restrições ao tráfego pelo Estreito de Ormuz mantiveram o mercado de energia sensível aos desdobramentos do conflito e aos possíveis efeitos sobre inflação e atividade econômica global.
INVESTIMENTOS

*Considerando IPCA + 6,31% a.a..
Fonte: Quantum Axis. Elaboração: LEMA
O mês de agosto foi marcado por desempenho positivo na maior parte dos índices acompanhados, com ampla parcela dos ativos superando a meta atuarial mensal de 0,19%. O principal destaque foi o Global BDRX, que avançou 6,04%, seguido pelo S&P 500, com alta de 2,62%.
Na renda fixa, o desempenho positivo foi disseminado entre os diferentes índices. IRF-M 1 apresentou retorno de 1,17%, enquanto o CDI avançou 1,09%, ambos acima da meta no mês. O IMA-B 5+ registrou alta de 1,81%, enquanto o IMA-B avançou 1,58% e o IDkA IPCA 2 Anos subiu 1,31%. O IMA-B 5 apresentou retorno de 1,28% e o IMA Geral ex-C avançou 1,21%. Entre os prefixados, o IRF-M e o IRF-M 1+ registraram altas de 1,04% e 1,00%, respectivamente. Dessa forma, todos os índices de renda fixa acompanhados superaram a meta atuarial no período.
Na renda variável, os resultados foram distintos entre o mercado doméstico e o exterior. Enquanto o Global BDRX e o S&P 500 avançaram 6,04% e 2,62%, respectivamente, o Ibovespa recuou 0,33%, sendo o único índice acompanhado a apresentar resultado negativo no mês. O movimento evidencia desempenho mais favorável dos ativos internacionais em agosto, em contraste com a leve retração do mercado acionário doméstico.
De forma geral, agosto apresentou desempenho favorável para as carteiras dos RPPS, com destaque para os ativos internacionais e para os índices de renda fixa, que permaneceram acima da meta atuarial. Os ativos de perfil mais conservador mantiveram retornos consistentes, enquanto os índices de maior duration também apresentaram desempenho positivo no período.
Por fim, a deflação observada no IPCA de agosto contribuiu para reduzir a meta atuarial mensal. Considerando a variação de -0,32% do indicador e uma meta de IPCA + 6,31% ao ano, a meta para o mês ficou em aproximadamente 0,19%. Esse movimento favoreceu o cumprimento da meta pelos investimentos acompanhados, com exceção do Ibovespa.
CONCLUSÃO

Fonte: Comdinheiro. Elaboração: LEMA.
Conforme evidenciado no gráfico, a curva de juros apresentou comportamento misto em agosto, com fechamento na ponta curta, abertura nos vértices intermediários e novo fechamento nos vencimentos mais longos. Nos prazos mais curtos, o recuo das taxas acompanhou as expectativas de continuidade da flexibilização monetária. Já nos vértices intermediários, a elevação das taxas indicou maior cautela do mercado em relação ao ritmo dos próximos cortes da Selic e às incertezas presentes no cenário doméstico.
O movimento observado na ponta curta favorece os ativos prefixados de menor duration, como o IRF-M 1, que apresentam maior sensibilidade ao fechamento das taxas. Por outro lado, a abertura nos vértices intermediários tende a aumentar a volatilidade dos ativos mais expostos às oscilações da curva.
Diante desse cenário, as estratégias mais conservadoras seguem favorecidas pelo elevado patamar dos juros. Os ativos vinculados ao CDI continuam apresentando rentabilidade consistente e menor volatilidade, enquanto o IRF-M 1 pode se beneficiar do fechamento da parte curta da curva. Nesse contexto, o Boletim Focus manteve a projeção da Selic em 13,75% ao final de 2026, reforçando a perspectiva de juros ainda elevados ao longo do ano.
| BRASIL | 2026 | 2027 | 2028 |
| PIB (% de crescimento real) | 1,93 | 1,50 | 1,96 |
| IPCA (em %) | 5,00 | 4,29 | 3,80 |
| IGP-M (em %) | 4,34 | 4,11 | 3,91 |
| Taxa de Câmbio final (R$/US$) | 5,20 | 5,30 | 5,30 |
| Taxa Selic (final do ano – em %) | 13,75 | 12,00 | 10,50 |
| Taxa de Juros Real (deflacionado IPCA – em %) | 8,33 | 7,39 | 6,45 |
Fonte: Focus (04/09/2026)
ELABORAÇÃO
Eduarda Benício
Murilo Lima
REVISÃO
Felipe Mafuz
Álvaro Dezidério
EDIÇÃO
André Vianna
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