Por especialista Bruna Araújo
No primeiro dia da Expert XP 2026, Janet Yellen, ex-secretária do Tesouro dos Estados Unidos e ex-presidente do Federal Reserve (Fed), foi um dos principais destaques do evento. Durante a palestra “Perspectivas Econômicas dos EUA e Globais: Desafios de Curto Prazo e Tendências de Longo Prazo”, Yellen debateu com Caio Megale, economista-chefe da XP, sobre alguns dos principais temas que vêm moldando o cenário econômico global.
Ao abordar sua visão sobre a trajetória da inflação e seus efeitos sobre a condução da política monetária, Yellen avaliou que a economia global ainda enfrenta as consequências de uma sequência de choques ocorridos desde a pandemia, o que tem dificultado a convergência da inflação para as metas definidas pelos diversos bancos centrais.
De acordo com a ex-secretária do Tesouro, as recentes pressões nos preços de energia e as mudanças na política comercial dos EUA seguem afetando esse processo e ampliando o grau de incerteza. Ao comentar especificamente sobre os impactos dos preços do petróleo sobre a inflação, Yellen afirmou que “parece haver uma extensão das hostilidades [no Oriente Médio] e nenhum fim à vista. Portanto, a inflação deve permanecer elevada por pelo menos um ano ou mais”.
Além disso, Yellen destacou que os níveis de juros considerados “neutros” no período pós-pandemia provavelmente permanecerão em patamares superiores aos observados em momentos anteriores. Ela afirmou, ainda, que caso as pressões inflacionárias se agravem, o Fed possui espaço para adotar uma postura monetária mais restritiva.
Ao tratar dos efeitos da inteligência artificial sobre os ganhos de produtividade, Yellen fez um comparativo com o cenário observado na década de 1990, período em que o aumento da produtividade contribuiu para sustentar um ciclo de expansão econômica sem provocar pressões inflacionárias significativas.
Apesar de reconhecer o potencial transformador da inteligência artificial, a ex-secretária do Tesouro ressaltou que seus impactos positivos sobre a produtividade ainda não são observados de maneira expressiva nos indicadores agregados da economia. Em sua avaliação, o atual movimento de investimentos em tecnologia também tem provocado maior pressão sobre setores como o de energia e o de semicondutores.
Em relação ao câmbio, Yellen destacou a trajetória de redução gradual da participação do dólar nas reservas internacionais observada nos últimos anos, movimento que, em sua avaliação, está relacionado às transformações na dinâmica econômica e geopolítica global. Contudo, afirmou não identificar, no cenário atual, uma alternativa com capacidade de substituir o dólar como principal moeda de reserva internacional, considerando a elevada liquidez, a profundidade e a solidez dos mercados financeiros norte-americanos.
No que se refere ao cenário fiscal, Yellen demonstrou preocupação com a trajetória das contas públicas de diversas economias desenvolvidas, especialmente diante do envelhecimento populacional e do aumento das pressões sobre as finanças públicas.
A ex-secretária do Tesouro também chamou atenção para os riscos geopolíticos, que têm contribuído para a elevação dos gastos com defesa e energia em algumas regiões do mundo, intensificando os desafios fiscais enfrentados por diferentes países e configurando um tema ao qual os investidores devem ficar atentos nos próximos anos.
Acerca dos desafios relacionados à implementação de ajustes fiscais, Yellen destacou a importância de promover uma consolidação das contas públicas, tanto nos Estados Unidos quanto nas demais economias, ressaltando que a comunicação dessas medidas representa um dos principais desafios para os políticos. Ela relembrou episódios em que as discussões em torno de medidas destinadas à redução do déficit fiscal se mostraram consideravelmente complexas no cenário político norte-americano, sobretudo por envolverem decisões que, frequentemente, são impopulares perante a sociedade.
Em sua avaliação sobre o futuro, Yellen considera que a sustentabilidade fiscal continuará entre os principais desafios das próximas décadas, tornando cada vez mais necessário o debate sobre o planejamento de longo prazo e a adoção de medidas voltadas à manutenção do equilíbrio das contas públicas.
As perspectivas apresentadas por Yellen ao longo da palestra evidenciam a relevância de temas como inflação, política monetária, câmbio, sustentabilidade fiscal e riscos geopolíticos para a dinâmica dos mercados e para as decisões de investimento.
Nesse contexto, o acompanhamento contínuo dessas perspectivas mostra-se de suma importância para os RPPS, especialmente no processo de avaliação e monitoramento dos investimentos no exterior, considerando os potenciais impactos das condições econômicas e geopolíticas sobre os mercados internacionais. Ao mesmo tempo, o cenário apresentado reforça a atratividade das estratégias domésticas de perfil conservador, sobretudo aquelas atreladas aos índices CDI e o IRF-M 1, que seguem se beneficiando do atual patamar elevado da taxa Selic e contribuindo para uma relação favorável entre risco e retorno, reforçando sua relevância na composição das carteiras dos RPPS.