IA e análise humana: o futuro do research

A evolução da inteligência artificial tem provocado mudanças relevantes na forma como informações são coletadas, organizadas e transformadas em análises. Durante o primeiro dia da Expert XP 2026, a palestra “Analistas vs. IA: qual o futuro do Research?”, com a participação de Carlos Daltozo, Thiago Kapulskis e Raphael Figueredo, discutiu se o avanço dessas ferramentas poderá substituir o trabalho desenvolvido pelos analistas.

A conclusão apresentada foi objetiva: a inteligência artificial deve transformar profundamente a atividade de research, mas não eliminar a necessidade de análise humana. A tecnologia funciona como uma potencializadora, capaz de processar grandes volumes de dados, consolidar informações de diferentes fontes e reduzir o tempo dedicado a tarefas operacionais. No entanto, a disponibilidade de dados não é suficiente para produzir uma análise consistente.

O principal desafio está em transformar as informações em conhecimento útil para a tomada de decisão. Contexto, nuances, qualidade da gestão, coerência das premissas e particularidades de cada empresa nem sempre podem ser identificados de forma adequada por um modelo automatizado. Cabe ao analista avaliar a relevância dos dados, questionar as conclusões apresentadas e incorporar fatores qualitativos que não estão necessariamente registrados em bases estruturadas.

Outro movimento destacado foi a verticalização da inteligência artificial. O conceito representa a adaptação de ferramentas inicialmente generalistas para atividades ou setores específicos. No mercado financeiro, uma IA verticalizada pode ser desenvolvida para compreender demonstrações financeiras, indicadores de mercado, documentos regulatórios, modelos de avaliação e a linguagem própria da análise de investimentos.

Essa especialização permite que a ferramenta trabalhe com fontes, critérios e metodologias mais aderentes ao problema analisado, reduzindo respostas genéricas e a ocorrência das chamadas alucinações, situações em que o sistema apresenta informações incorretas, inconsistentes ou sem fundamentação suficiente. Ainda assim, a verticalização não elimina a possibilidade de erros, vieses ou falhas de interpretação, tornando indispensáveis a conferência das fontes, a validação dos dados e a revisão técnica.

A disseminação das mesmas ferramentas também pode contribuir para a homogeneização das análises. Caso diferentes profissionais utilizem modelos semelhantes, alimentados pelos mesmos dados e orientados por comandos próximos, as conclusões podem se tornar cada vez mais parecidas. No mercado financeiro, esse comportamento pode levar investidores a adotarem decisões concentradas na mesma direção, ampliando movimentos de compra ou venda e contribuindo para maior volatilidade.

Nesse contexto, o diferencial competitivo permanece no fator humano. A capacidade de questionar as respostas, confrontar informações, compreender o momento de cada empresa e comunicar as conclusões de forma clara continuará distinguindo uma análise consistente de uma reprodução automatizada. A construção de confiança e a interação com o investidor também permanecem relevantes, principalmente quando as decisões envolvem riscos, incertezas e objetivos de longo prazo.

A inteligência artificial também amplia as possibilidades de personalização. Embora a ferramenta possa ser semelhante para diferentes usuários, a entrega não deve ser igual para todos. Cada investidor possui objetivos, horizonte de investimento, necessidade de liquidez, tolerância a risco e nível de conhecimento distintos. A tecnologia pode apoiar o processamento das informações, mas cabe ao profissional adaptar a análise e a comunicação às características de cada cliente.

Para os RPPS, essa discussão possui aplicação direta. A inteligência artificial pode apoiar a consolidação de dados, o acompanhamento das carteiras, a comparação de ativos, a avaliação de riscos e a elaboração de relatórios. Entretanto, a análise do enquadramento, da aderência à Política de Investimentos, da compatibilidade com as obrigações previdenciárias e da adequação das decisões ao perfil do regime permanece sob responsabilidade dos profissionais e dos órgãos de governança.

O futuro do research, portanto, não deve ser compreendido como uma escolha entre o analista e a inteligência artificial. Não se trata de um ou de outro, mas de um com o outro. A tecnologia amplia a velocidade, o alcance e a capacidade de processamento, enquanto o profissional acrescenta contexto, julgamento, experiência e personalização. A qualidade da análise continuará dependendo não apenas da ferramenta utilizada, mas da capacidade de quem a utiliza.