Na terceira Super Quarta do ano, as decisões de política monetária nos Estados Unidos e no Brasil voltaram a evidenciar estágios distintos do ciclo. A coincidência das reuniões do Federal Reserve e do Comitê de Política Monetária aumentou a relevância do dia para os mercados, considerando o impacto direto dessas decisões sobre expectativas, preços de ativos e fluxo de capitais.
Nos Estados Unidos, o Federal Reserve manteve a taxa básica no intervalo de 3,50% a 3,75%, em decisão amplamente esperada, mas não unânime. Parte dos membros votou por cortes, indicando que o debate sobre o início do ciclo de flexibilização já está colocado dentro do comitê. A reunião também marcou a última conduzida por Jerome Powell à frente da autoridade monetária. No comunicado, o Fed destacou que a atividade econômica segue resiliente, enquanto o mercado de trabalho apresenta sinais de moderação, ainda com desemprego em nível baixo. A inflação permanece acima da meta, o que sustenta a cautela. Além disso, o cenário externo ganhou peso adicional, com a escalada das tensões envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel, aumentando a incerteza global e reforçando a condução dependente dos próximos dados.
No Brasil, o Comitê de Política Monetária optou por reduzir a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, de 14,75% para 14,50% ao ano, em decisão unânime e em linha com o esperado. Foi o segundo corte consecutivo do ciclo, mas com sinalização de maior cautela à frente. O comunicado destacou que o ambiente externo segue mais adverso, especialmente diante da escalada das tensões geopolíticas, que tem pressionado os preços de commodities, sobretudo o petróleo. No cenário doméstico, os indicadores apontam para uma desaceleração gradual da atividade, enquanto o mercado de trabalho permanece resiliente. A inflação cheia e seus núcleos ainda se encontram em patamar elevado, e as expectativas seguem desancoradas, principalmente nos horizontes mais longos, o que limita o espaço para cortes mais intensos no curto prazo.
Em síntese, apesar de ambos os bancos centrais estarem mais cautelosos, os vetores são distintos. O Federal Reserve já discute o momento adequado para iniciar cortes, enquanto o Comitê de Política Monetária ainda conduz um ciclo gradual e mais condicionado ao cenário externo e à dinâmica inflacionária doméstica.