Lula é reeleito: Perspectivas para a economia e os mercados
5 min de leitura
A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva para o período de 2027 a 2030 representa a continuidade das principais diretrizes da política econômica, com foco no fortalecimento do investimento público e na ampliação do crédito produtivo e na manutenção das políticas sociais. Leia mais!

A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva para o período de 2027 a 2030 representa a continuidade das principais diretrizes da política econômica, com foco no fortalecimento do investimento público e na ampliação do crédito produtivo e na manutenção das políticas sociais. Entretanto, para os mercados financeiros, o principal ponto de atenção será a capacidade do governo de conciliar essas prioridades com a necessidade de consolidação fiscal, diante do crescimento da dívida pública e das limitações orçamentárias.
O programa de governo prevê a manutenção do atual arcabouço fiscal, a continuidade do Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e o fortalecimento da política industrial por meio da Nova Indústria Brasil (NIB). Também estão previstas iniciativas voltadas à ampliação do financiamento produtivo, com participação dos bancos públicos, além de incentivos à infraestrutura, inovação e transição energética. Essas medidas poderão contribuir para a expansão da capacidade produtiva e dos investimentos, embora seus resultados dependam das condições de financiamento, da execução dos projetos e da participação do setor privado.
Na esfera fiscal, a principal questão será a capacidade de estabilizar a trajetória da dívida pública em relação ao Produto Interno Bruto (PIB). Embora o programa reafirme o compromisso com o controle das despesas primárias, a continuidade da valorização real do salário mínimo, o crescimento dos gastos obrigatórios e a rigidez orçamentária deverão limitar o espaço para novas despesas discricionárias. Além disso, a estratégia de ajuste baseada no crescimento econômico, na eficiência do gasto e na ampliação da arrecadação poderá exigir medidas complementares para assegurar resultados primários compatíveis com a sustentabilidade da dívida.
As projeções fiscais para 2027 evidenciam esse desafio. Enquanto o projeto orçamentário prevê superávit primário de R$ 18,6 bilhões, a Instituição Fiscal Independente (IFI), vinculada ao Senado Federal, projeta déficit primário de R$ 86,1 bilhões, além da possibilidade de a dívida bruta alcançar 86,4% do PIB. A diferença entre os cenários reforça a importância das medidas que serão adotadas no início do novo mandato e de seus efeitos sobre a credibilidade da política fiscal.
No mercado de renda fixa, a evolução das contas públicas continuará sendo determinante para a formação dos prêmios de risco. A persistência de desequilíbrios fiscais poderá manter pressionados os vértices intermediários e longos da curva de juros, afetando a precificação dos títulos prefixados e indexados à inflação. Em contrapartida, medidas que fortaleçam a previsibilidade fiscal poderão favorecer o fechamento da curva, reduzindo os prêmios exigidos pelos investidores e contribuindo para a valorização desses ativos no mercado.
A condução da política monetária também estará condicionada à dinâmica fiscal e inflacionária. Embora a desaceleração da atividade econômica possa favorecer a continuidade do ciclo de redução da Selic, a manutenção de estímulos à demanda agregada, em um ambiente de expectativas de inflação ainda pressionadas, poderá limitar o espaço para cortes mais expressivos. Nesse sentido, a evolução das expectativas inflacionárias e a percepção de sustentabilidade das contas públicas serão relevantes para a trajetória dos juros ao longo de 2027.
No mercado cambial, eventuais dúvidas relacionadas à trajetória da dívida poderão ampliar a volatilidade do real, com possíveis reflexos sobre os preços de bens importados e as expectativas de inflação. Entretanto, o comportamento da moeda brasileira também dependerá das condições financeiras internacionais, especialmente da política monetária norte-americana, dos preços das commodities e dos fluxos de capitais para os mercados emergentes.
Na Bolsa brasileira, os efeitos da continuidade da atual orientação econômica deverão variar entre os setores. Segmentos ligados à infraestrutura, construção civil, habitação e indústria poderão encontrar suporte na manutenção dos programas de investimento e financiamento, embora o desempenho dessas empresas nos últimos anos tenha sido heterogêneo, evidenciando que a continuidade dos estímulos não garante valorização das ações. As perspectivas também permanecerão condicionadas ao nível das taxas de juros, às condições de crédito e à execução dos projetos. Por outro lado, empresas mais alavancadas e dependentes do crédito permanecerão sensíveis ao custo de capital. Companhias exportadoras e empresas com maior previsibilidade de geração de caixa poderão apresentar maior resiliência em cenários de volatilidade cambial e juros elevados. No caso das estatais, as perspectivas também dependerão das diretrizes de investimentos, distribuição de dividendos e governança corporativa.
Vale citar também que a continuidade dos subsídios ao diesel representa um ponto de atenção no que se refere às pressões inflacionárias, especialmente diante da proximidade do vencimento de parte dessas medidas, em um contexto de incerteza quanto à sua renovação após o segundo turno das eleições. Segundo o Goldman Sachs, o preço do combustível praticado pela Petrobras, considerando os subsídios, apresenta defasagem de 21% em relação à paridade internacional, o que poderia abrir espaço para um reajuste de aproximadamente 50% nas vendas às distribuidoras. Nesse cenário, o impacto estimado sobre o IPCA seria de 0,21 a 0,24 ponto percentual. Contudo, o banco mantém, em seu cenário-base, a expectativa de estabilidade dos preços até o final de 2026.
Para os investidores, um cenário de persistência de dúvidas fiscais e juros de longo prazo elevados tende a favorecer, em termos de menor sensibilidade às oscilações da curva, aplicações pós-fixadas e títulos de prazos mais curtos. Já os títulos prefixados e indexados à inflação de maior prazo, quando marcados a mercado, poderão enfrentar maior volatilidade ou desvalorização diante de novas altas das taxas, assim como ações de empresas mais endividadas e dependentes de crédito. Em sentido oposto, segmentos ligados à infraestrutura, habitação e indústria poderão encontrar oportunidades na continuidade dos programas de investimento, condicionadas à execução dos projetos. Exportadoras poderão apresentar maior resiliência em um cenário de depreciação do real, sem que isso elimine riscos setoriais e externos.
Para as carteiras dos Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS), o direcionamento estratégico é privilegiar a liquidez e o controle da volatilidade, com atenção às aplicações pós-fixadas e às estratégias de renda fixa de menor duration, diante da possibilidade de manutenção dos prêmios de risco. Os títulos públicos indexados à inflação para carregamento continuam relevantes quando compatíveis com as necessidades de caixa e com o estudo de ALM. Já a ampliação de posições em títulos longos marcados a mercado e em renda variável requer maior seletividade, acompanhamento da trajetória fiscal e adequação ao perfil e aos limites de cada carteira.
Por outro lado, avanços na consolidação fiscal e na previsibilidade do orçamento poderão reduzir os prêmios de risco e favorecer a valorização de títulos de maior prazo e de ações domésticas. Dessa forma, a reeleição de Lula aponta para a continuidade da orientação econômica, mas o desempenho dos ativos dependerá, sobretudo, da combinação entre execução dos investimentos, trajetória da dívida pública e decisões de política monetária. Esses fatores deverão orientar a avaliação de riscos e oportunidades ao longo de 2027.
ELABORAÇÃO
Eduarda Benício
REVISÃO
Álvaro Dezidério
Felipe Mafuz
EDIÇÃO
Igor Nobre
DISCLAIMER
Esse artigo tem como objetivo único fornecer informações macroeconômicas, e não constitui e tampouco deve ser interpretado como sendo uma oferta de compra ou venda ou como uma solicitação de uma oferta de compra ou venda de qualquer instrumento financeiro, ou de participação em uma determinada estratégia de negócios em qualquer jurisdição.
As informações contidas nesse artigo foram obtidas de fontes públicas ou privadas não sigilosas.
A LEMA Economia & Finanças (“LEMA”) não dá nenhuma segurança ou garantia, seja de forma expressa ou implícita, sobre a integridade, confiabilidade ou exatidão dessas informações.
Esse artigo também não tem a intenção de ser uma relação completa ou resumida dos mercados ou desdobramentos nele abordados.
As opiniões, estimativas e projeções expressas nesse artigo refletem a opinião atual do responsável pelo conteúdo desse artigo na data de sua divulgação e estão, portanto, sujeitas a alterações sem aviso prévio.
A LEMA não tem obrigação de atualizar, modificar ou alterar esse artigo e, tampouco, de informar ao leitor.
Esse artigo não pode ser reproduzido ou redistribuído para qualquer outra pessoa, no todo ou em parte, qualquer que seja o propósito, sem o prévio consentimento por escrito da LEMA.
A LEMA não se responsabiliza, e tampouco se responsabilizará por quaisquer decisões, de investimento ou de outra forma, que forem tomadas com base nos dados aqui divulgados.
Informações adicionais sobre as informações contidas nesse artigo se encontram disponíveis mediante solicitação por meio dos canais de comunicação estabelecidos pela LEMA.